sábado, 21 de fevereiro de 2015

50 tons de literatura



Faz milhares de anos que a humanidade aprendeu a contar e ouvir histórias dos mais variados gêneros. A literatura, assim como a música, a pintura e outras tantas formas de arte, tem nos acompanhado desde sempre, nos entretendo, nos fazendo sonhar e viajar para mundos distantes e, às vezes, suscitando polêmicas.
Tal como a maioria das obras que envolvam o tema da sexualidade, 50 tons de cinza, da inglesa E. L. James, agora adaptado para o cinema, é a bola da vez nas rodas de amigos, nas redes sociais e até na fila do supermercado. Muito embora o tema seja antigo e tenha muito melhores representantes tanto na literatura quanto no cinema, livro e filme mexeram com o imaginário feminino de todas as idades. Enquanto criação artística o livro é sofrível: a autora escreve mal e possui um vocabulário limitado, com muitas repetições e enleios desnecessários. Cada um dos três volumes poderia ter bem umas cem páginas a menos.
Possivelmente trata-se de um raríssimo caso em que a versão filmada supera o livro. Com uma direção competente, ótimo trabalho de fotografia e boas atuações, o filme cativa e mantém a plateia ligada o tempo todo. Embora tenha recebido uma roupagem de comédia romântica, o humor vai desaparecendo da tela à medida que a personagem Anastasia Steele se aprofunda na personalidade sombria de Christian Grey e seus jogos sadomasoquistas.
Talvez por um erro de interpretação, muitas pessoas criticam a obra como sendo um "atentado aos bons costumes" ou "inversão de valores de uma sociedade decadente", dando a entender que o mote principal da história é o sexo, enquanto na verdade este é apenas um pano de fundo para a clássica história da gata borralheira e seu príncipe amaldiçoado, neste caso. Basicamente, pode-se afirmar que se trata de uma história de amor dos tempos modernos, com o devido espaço para a exploração de demônios psicológicos que, diga-se de passagem, todos nós temos.
Um dos aspectos interessantes explorado pelo livro e filme é a ideia da dominação. A figura masculina, representada por Grey, faz questão de mostrar que está no controle o tempo todo, porém aos poucos acaba se dando conta de estar ele próprio dominado pelos encantos da frágil e ingênua Anastasia. Ana, por outro lado, se sente insegura e amedrontada, afinal é ainda virgem. Mesmo assim, se vê a mercê do jovem bonitão multimilionário, e acaba se deixando levar pelos desígnios do seu coração e sobretudo pela curiosidade, traços sempre predominantes na alma feminina.
É a partir desta relação que se inicia de forma quase mágica e aos poucos vai ganhando ares mais obscuros que se estabelece o jogo da sedução. Christian Grey exerce um fascínio quase místico tanto sobre Ana quanto sobre as leitoras e espectadoras das salas de cinema, afinal que mulher nunca se imaginou vivendo uma situação semelhante?! Para (quem sabe) conquistar de vez seu príncipe, Ana terá que desvendar os mistérios que cercam a infância e adolescência do perturbado Grey, um homem ambicioso e arredio, cuja alma parece encerrar um amálgama de múltiplos e diferentes tons, conforme nos diz o próprio título da obra.
Apesar das muitas opiniões, resenhas e críticas condenatórias, algumas até afirmando que os apreciadores da história serão merecedores do inferno e que a literatura não deve se rebaixar a esse nível, acredito no oposto: a literatura foi inventada para que todas as histórias tivessem oportunidade de serem contadas, inclusive esta e, pensando bem, de boas intenções o inferno está cheio já faz um bom tempo.

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