sábado, 20 de novembro de 2010

Engrenagem emperrada


Em 1993 ingressei no 1º ano do Ensino Médio, na Escola Eugênio Franciosi, no turno da noite. Nossa turma devia ter coisa de uns 25 alunos, que vinham de várias localidades do interior do município e também alguns aqui mesmo da cidade. Como ainda hoje acontece, as aulas iniciavam às 19 horas. Entrávamos na sala, arrumávamos nossos livros, cadernos, lápis e caneta, uma borracha, régua talvez, e ficávamos aguardando pela chegado do professor ou professora, enquanto se verificava se tinha ficado algum tema pendente ou se tudo tinha sido feito. Algum colega chegava para pedir ajuda, perguntava sobre a fórmula que tínhamos usado para resolver aquele problema assim mais difícil...
Tenho saudade daquelas aulas. Havia um interesse em SABER de fato os conteúdos que o professor trazia pra gente, tínhamos sempre curiosidade, que é o combustível do aprendizado. Claro, às vezes estávamos cansados ou pouco estimulados, mas sempre se tinha paciência para escutar as explicações, as falas do professor. Eu sempre tive muito claro na minha cabeça que o personagem principal ali no espaço da sala de aula era o professor. Era pra ele que devíamos dedicar nossa atenção, pedir explicações, tirar dúvidas.
Havia sobretudo um clima de muito respeito para com a pessoa do professor. Nunca me peguei questionando sobre a importância desse ou daquele conteúdo, pois acreditava que o professor tinha sido preparado para dar aulas, para ensinar, e sabia o que estava fazendo. Por mais que achasse a aula chata ou mesmo desinteressante num dado momento, nunca deixei de fazer as tarefas solicitadas, os trabalhos, as apresentações, pois entendia que minha formação pessoal dependia em primeiro lugar de mim mesmo, nunca exclusivamente do professor.
Daquele tempo pra cá, muita coisa mudou, e para pior. A sala de aula não é mais vista como um espaço para se aprender conteúdos, discutir ou debater ideias. Afora as poucas exceções, a presença do professor é solenemente ignorada em sala de aula. Envolvidos em conversas fúteis e risadas sem motivo de estarem acontecendo, os alunos estão ali somente “de corpo presente”, seus pensamentos estão sabe-se lá onde... Não bastasse o desrespeito pela pessoa do professor, se vê um desrespeito pelo conteúdo, pelo conhecimento. Aprender coisas novas, atiçar a curiosidade, pensar e se questionar sobre o porquê das coisas tornou-se algo sem importância.
O espaço da sala de aula, aquele espaço da busca pelo crescimento pessoal, onde desde a antiguidade tem se buscado aprender com os mestres, virou um lugar de diversão ou lazer. Hoje é um local para se reunir com os amigos, conversar amenidades, discutir sobre como foi o fim de semana ou planejar o próximo. Sim, ainda existem alunos preocupados com seu aprendizado e formação, mas estes estão cada vez mais escassos, e quando estão lá, têm muita dificuldade para aprender em meio aos colegas “turistas”.
Pessoalmente, sempre gostei de estudar, de descobrir coisas novas, de buscar explicações para as grandes perguntas que a vida nos apresenta, tenho verdadeira paixão por isso. Foi por causa dessa relação de amor com o saber, com o conhecimento, que me tornei professor. Hoje, entendo que as relações entre professor e aluno estão bastante mudadas. Não existe mais curiosidade nem aquela vontade de aprender algo novo. O que existe é uma preocupação enorme com a nota. “Se tenho boas notas, que importa se sei ou não este conteúdo?!” Os mecanismos do aprendizado parecem ter parado de funcionar. A engrenagem emperrou. O conhecimento, o saber acumulado ao longo de séculos e séculos é uma arca que encerra tesouros grandiosos, porém ninguém mais parece interessado em procurá-la e desenterrá-la. É mesmo uma pena.

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